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5 de Marco, 2014 - 11:57
A (ex) mulher da minha vida

  IVAN MARTINS É editor-executivo de ÉPOCA (Foto: ÉPOCA)





Por que a gente só descobre que ama depois que pessoa foi embora?


Vinícius de Moraes disse uma vez que as mulheres nunca são tão belas quanto no momento em que vão embora. É uma frase bonita que descreve uma situação triste – os homens, costumeiramente, esperam as mulheres partir para descobrirem, logo depois, que cometeram um erro terrível. A mulher que foi embora se transforma, instantaneamente, na mulher da vida deles, única e insubstituível. As mulheres conhecem essa história de cor e salteado. Converse com qualquer uma delas e você vai descobrir que o homem bumerangue está na área desde que elas têm 14 anos. O sujeito enjoa do namoro, começa a tratar a moça mal e dá um pé na bunda dela – ou leva, depois de repetidas desatenções. Dias depois, porém, ou mesmo horas depois, lá está o mesmo cidadão ao telefone, transtornado, pedindo para voltar e usando expressões definitivas como “eu te amo”, “não sei viver sem você” e, claro, a melhor de todas, “você é a mulher da minha vida”. Quem nunca fez esse papelão levante a mão! Muitos já fizeram, mas há muitos que transformam esse comportamento errático em modo de vida. Eles estão sempre apaixonados por uma de duas mulheres – aquela que já foi embora ou aquela que ainda não apareceu. A mulher do agora, com quem ele dorme, viaja e vai ao cinema, essa nunca é tão bacana. Mas, basta ela se cansar do enfado dele e retirar o time de campo para se tornar, instantaneamente, a mulher mais linda e mais desejada do mundo – a (ex) mulher da vida dele. Já ouvi dezenas de amigas me perguntarem, ao longo dos anos, sobre o que passa na cabeça dos homens que agem assim. Na nossa cabeça, afinal. Eu não sei. Meu melhor palpite é que se trata de uma terrível ilusão romântica. Ela desloca a felicidade para outro momento da vida, diferente do agora. Produz insatisfação crônica. Quando está no modo nostálgico, o sujeito imagina que o melhor ficou para trás: a ex é que era engraçada, bacana, a melhor foda do universo. No outro modo, o futurista, o sujeito se põe a fantasiar furiosamente sobre uma nova mulher, que ele acaba de conhecer. Ela, sim, bonita desse jeito, divertida, poderá fazê-lo feliz pelo resto da vida! Cientistas que estudam o otimismo humano dizem que muitas pessoas acreditam, sem razão objetiva, e muitas vezes contrariando as evidências, que a vida vai lhes dar coisas cada vez melhores. Amor, inclusive. Talvez esses tipos que estão sempre olhando para o futuro, à espera de uma pessoa melhor, sejam apenas otimistas incorrigíveis. Ou tolos. O que é o otimismo sem fundamento senão uma espécie esperançosa de burrice? Escrevo sobre homens porque esse comportamento inquieto parece ser mais comum entre nós, mas as mulheres não estão livres dele. Com o fim das convenções sociais que as obrigavam a serem fiéis e bem comportadas – mulher de um homem só, pela vida toda – elas também começam a agir como Don Juan, o sedutor serial da literatura: olham, querem, seduzem, se decepcionam, começam a sonhar de olhos abertos, terminam o relacionamento, começam tudo de novo. Feito homem. Foram contaminadas pela inquietação do amor perfeito. Muita gente acredita que essa insatisfação permanente é a única forma real da existência humana. Dizem que relações e sentimentos duradouros seriam, na verdade, uma violência contra a nossa natureza de bichos. Afinal, não estamos sexualmente interessados em outras pessoas o tempo inteiro? Se fôssemos honestos, afirmam, teríamos de admitir que nosso desejo é múltiplo e está sempre à procura do próximo objeto. Por isso, não deveríamos estabelecer relações de exclusividade com ninguém. Eu não vejo as coisas desse modo. Acho que podemos escolher entre viver de forma auto-indulgente, correndo atrás do nosso desejo insaciável, ou negociar com ele. O relacionamento é um espaço negociado. Eu e você decidimos que estaremos aqui dentro, juntos, sabendo que uma parte de nós gostaria de estar lá fora, na pluralidade. Mas, lá fora, você e eu sabemos, há sempre uma vontade enorme de estar aqui dentro. Então ficamos, apertamos os nossos vínculos, e desfrutamos da nossa rica intimidade, nos privando de muitas coisas que gostaríamos de tentar, embora não necessariamente de todas. Se o esforço para ficar aqui dentro tornar-se grande demais, caímos fora. E começamos de novo, com muita dor. Acho essa uma proposição honesta e realista, romântica de uma maneira moderna. Ela é melhor, a meu ver, do que a ilusão de que o grande-amor-definitivo-e-arrebatador surgirá a qualquer momento, e, por isso, devemos estar emocionalmente livres para recebê-lo, sem nos envolver de forma profunda com ninguém no presente. É melhor, também, do que a sensação de que a mulher que deixamos partir (ou o homem que escolhemos deixar) era a única que tinha o poder de nos fazer felizes. Sei que isso é um clichê miserável, mas o fato é que não existe uma pessoa que nos fará magicamen te felizes. A tal felicidade, se existe, depende de nós. Nós deveríamos ser capazes de escolher e ficar contentes com a pessoa que escolhemos. Ou, se não for esse o caso, ao menos deveríamos estar contentes com o estilo de vida desprendido que adotamos. Tudo aqui e agora. Não adianta ser feliz no ontem, que já passou, ou no amanhã, que talvez nunca venha.


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